Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão
(...)
Sou eu, desde a aurora,
eu - a terra - que te procuro.
Eugénio de Andrade
*Neste país onde se morre de coração inacabado.
Thursday, February 27, 2014
Tuesday, February 25, 2014
Se me esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz,metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estarás nos teus braços
sem sair dos meus.
Pablo Neruda in Poemas de Amor
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz,metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estarás nos teus braços
sem sair dos meus.
Pablo Neruda in Poemas de Amor
Sunday, February 23, 2014
Friday, February 21, 2014
Thursday, February 20, 2014
Wednesday, February 19, 2014
Friday, February 14, 2014
Temos o voo do coração na ponta dos dedos
(...)temos o voo do coração na ponta dos dedos
Na garganta ficou-nos um travo acetinado de corpos
Um rasto prateado de correrias pela cidade(...)
Resta-nos adormecer onde eclode a borboleta
E balbuciar dentro do sonho as palavras que nunca
Ousaremos dizer(...)
Amolecidos corpos fissuram-se
Explodem
A cidade ecoa noite adiante esse grito
Daquela maneira com que as línguas se tangem ou o
Mar entra subitamente pela casa de alguém(...)
Mas é noite,
Dizíamos
É noite,
dentro do meu coração de papel,
Falemos baixinho
Para não nos acordarmos(...)
Al Berto
*No dia 19 de Maio de 2008 publiquei aqui este poema de Al Berto.
Por ser o favorito publico hoje também.Não resisti!!
Na garganta ficou-nos um travo acetinado de corpos
Um rasto prateado de correrias pela cidade(...)
Resta-nos adormecer onde eclode a borboleta
E balbuciar dentro do sonho as palavras que nunca
Ousaremos dizer(...)
Amolecidos corpos fissuram-se
Explodem
A cidade ecoa noite adiante esse grito
Daquela maneira com que as línguas se tangem ou o
Mar entra subitamente pela casa de alguém(...)
Mas é noite,
Dizíamos
É noite,
dentro do meu coração de papel,
Falemos baixinho
Para não nos acordarmos(...)
Al Berto
*No dia 19 de Maio de 2008 publiquei aqui este poema de Al Berto.
Por ser o favorito publico hoje também.Não resisti!!
Tuesday, February 11, 2014
Monday, February 10, 2014
Friday, February 7, 2014
Cada coisa em seu lugar
Descobri que a minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente em ordem, mas pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reacção contra a minha negligência, que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma mas sim um signo do zodíaco.
Gabriel García Marquez in Memória das minhas putas tristes
Gabriel García Marquez in Memória das minhas putas tristes
Thursday, February 6, 2014
Je t´aime, moi non plus
e adormece.
e logo aos mãos se fecham
e encaminham.
Maria Teresa Horta
Wednesday, February 5, 2014
Monday, February 3, 2014
you are welcome to elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny
Sunday, February 2, 2014
com fúria e raiva
Com fúria e raiva acusa o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
(...)
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz jogo e poder
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra.
Sophia de Mello Breyner in "O nome das coisas"
E o seu capitalismo das palavras
(...)
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz jogo e poder
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra.
Sophia de Mello Breyner in "O nome das coisas"
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