Wednesday, January 15, 2014

A dor de todas as ruas vazias

deus tem que ser substituído rapidamente por poe-

mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,

vivos e limpos.



a dor de todas as ruas vazias.



sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste

silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-

mo.

sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-

bar comigo mesmo.



a dor de todas as ruas vazias.



mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do

deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e

dos encontros inesperados.

pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-

ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.



a dor de todas as ruas vazias.



pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-

boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no

cimo do mastro, e mandar arrear o velame.



é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem

cadastro.



a dor de todas as ruas vazias.



sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o

filme acabou. não nos conheceremos nunca.



a dor de todas as ruas vazias.



os poemas adormeceram no desassossego da idade.

fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais

curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me

as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e

nada escrevo.

o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e

a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.



a dor de todas as ruas vazias.







Al-Berto

Horto de Incêndio

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