brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor.queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia.
(...)
Eu amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo.
válter hugo Mãe
Wednesday, July 9, 2014
Monday, June 23, 2014
Rumor dos fogos
Hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o dragão em celulóide da infância
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos...
dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi há muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde
e as mãos eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais
não quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba abandono
desta obra que fica por construir...o receio
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar
ficou-me esta mão com sua sombra de terra
sobre o papel branco...como é louca esta mão
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas.
Al Berto in "O medo"
o dragão em celulóide da infância
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos...
dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi há muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde
e as mãos eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais
não quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba abandono
desta obra que fica por construir...o receio
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar
ficou-me esta mão com sua sombra de terra
sobre o papel branco...como é louca esta mão
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas.
Al Berto in "O medo"
Wednesday, June 18, 2014
Thursday, June 12, 2014
Sunday, May 18, 2014
Saturday, May 17, 2014
Friday, April 25, 2014
Revolução
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um Povo
Como a página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua Habitação.
Sophia de Mello Breyner in "O Nome das Coisas"
*O dia de hoje enche-me de esperança e amor!! Tudo me comove, também em alegria...e a Sophia sabia isso, sabia...
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um Povo
Como a página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua Habitação.
Sophia de Mello Breyner in "O Nome das Coisas"
*O dia de hoje enche-me de esperança e amor!! Tudo me comove, também em alegria...e a Sophia sabia isso, sabia...
Sunday, April 20, 2014
antes de adormecer
eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
e queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo o tempo.
e em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
depois regressa o silêncio.os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.
Rilke ( tradução de Mª João Pereira)
sentar-me junto de alguém e estar aí.
eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
e queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo o tempo.
e em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
depois regressa o silêncio.os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.
Rilke ( tradução de Mª João Pereira)
Tuesday, April 15, 2014
a tua beleza para mim está em existires
Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim;
Alegre pelo critério (?) que tenho em Poder ver-te
Sem "estado de alma" nenhum, sonho ver-te.
A tua beleza para mim está em existires
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim.
Alberto Caeiro in "Poemas Inconjuntos"
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim;
Alegre pelo critério (?) que tenho em Poder ver-te
Sem "estado de alma" nenhum, sonho ver-te.
A tua beleza para mim está em existires
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim.
Alberto Caeiro in "Poemas Inconjuntos"
Saturday, April 12, 2014
do sentimento trágico da vida
Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.
E só depois de informado
só depois de esclarecido.
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.
Natália Correia
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.
E só depois de informado
só depois de esclarecido.
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.
Natália Correia
Thursday, April 10, 2014
Para os lábios que o Homem faz
Para os lábios
que o homem faz
que atraem beijos
ao redor do mundo
ficou na nossa memória
em qualquer parte a qualquer hora
um pedaço
de pão
Promessa
que se cumpre
que alimenta o mundo
Olhos
a exigir
uma floresta.
Mário Cesariny in "Pena Capital"
que o homem faz
que atraem beijos
ao redor do mundo
ficou na nossa memória
em qualquer parte a qualquer hora
um pedaço
de pão
Promessa
que se cumpre
que alimenta o mundo
Olhos
a exigir
uma floresta.
Mário Cesariny in "Pena Capital"
Anna Fisher
Gorgeous!!
Tuesday, April 1, 2014
o amor, meu amor
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me no teu leito
quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.
Mia Couto in " idades cidades divindades"
Thursday, March 27, 2014
Monday, March 17, 2014
Sunday, March 16, 2014
Uma (A) Paixão
Visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com o teu rosto de Modigliani suicidado
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando a tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem com o teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te.
Al berto
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com o teu rosto de Modigliani suicidado
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando a tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem com o teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te.
Al berto
Saturday, March 15, 2014
Friday, March 14, 2014
early spring
Harshness vanished. A sudden softness
has replaced the meadows´wintry grey.
Little rivulets of water changed
their singing accents. Tendernesses,
hesitantly, reach toward the earth
from space, and country lanes are showing
these unexpected subtle risings
that find expression in the empty trees.
Rilke
has replaced the meadows´wintry grey.
Little rivulets of water changed
their singing accents. Tendernesses,
hesitantly, reach toward the earth
from space, and country lanes are showing
these unexpected subtle risings
that find expression in the empty trees.
Rilke
Wednesday, March 12, 2014
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado as pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
Maria Teresa Horta
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado as pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
Maria Teresa Horta
Tentativas para um regresso
caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentos corpos
e um dia...quem sabe?
chegaremos.
Al berto
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentos corpos
e um dia...quem sabe?
chegaremos.
Al berto
Tuesday, March 11, 2014
Saturday, March 8, 2014
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.
Sophia de Mello Breyner
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.
Sophia de Mello Breyner
Sunday, March 2, 2014
Saturday, March 1, 2014
...
Hoje fariam sentido umas "Àguas de Março" e de certo modo são, sob a forma de "Chega de Saudade".
Thursday, February 27, 2014
Saudade quase
Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão
(...)
Sou eu, desde a aurora,
eu - a terra - que te procuro.
Eugénio de Andrade
*Neste país onde se morre de coração inacabado.
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão
(...)
Sou eu, desde a aurora,
eu - a terra - que te procuro.
Eugénio de Andrade
*Neste país onde se morre de coração inacabado.
Tuesday, February 25, 2014
Se me esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz,metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estarás nos teus braços
sem sair dos meus.
Pablo Neruda in Poemas de Amor
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz,metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estarás nos teus braços
sem sair dos meus.
Pablo Neruda in Poemas de Amor
Sunday, February 23, 2014
Friday, February 21, 2014
Thursday, February 20, 2014
Wednesday, February 19, 2014
Friday, February 14, 2014
Temos o voo do coração na ponta dos dedos
(...)temos o voo do coração na ponta dos dedos
Na garganta ficou-nos um travo acetinado de corpos
Um rasto prateado de correrias pela cidade(...)
Resta-nos adormecer onde eclode a borboleta
E balbuciar dentro do sonho as palavras que nunca
Ousaremos dizer(...)
Amolecidos corpos fissuram-se
Explodem
A cidade ecoa noite adiante esse grito
Daquela maneira com que as línguas se tangem ou o
Mar entra subitamente pela casa de alguém(...)
Mas é noite,
Dizíamos
É noite,
dentro do meu coração de papel,
Falemos baixinho
Para não nos acordarmos(...)
Al Berto
*No dia 19 de Maio de 2008 publiquei aqui este poema de Al Berto.
Por ser o favorito publico hoje também.Não resisti!!
Na garganta ficou-nos um travo acetinado de corpos
Um rasto prateado de correrias pela cidade(...)
Resta-nos adormecer onde eclode a borboleta
E balbuciar dentro do sonho as palavras que nunca
Ousaremos dizer(...)
Amolecidos corpos fissuram-se
Explodem
A cidade ecoa noite adiante esse grito
Daquela maneira com que as línguas se tangem ou o
Mar entra subitamente pela casa de alguém(...)
Mas é noite,
Dizíamos
É noite,
dentro do meu coração de papel,
Falemos baixinho
Para não nos acordarmos(...)
Al Berto
*No dia 19 de Maio de 2008 publiquei aqui este poema de Al Berto.
Por ser o favorito publico hoje também.Não resisti!!
Tuesday, February 11, 2014
Monday, February 10, 2014
Friday, February 7, 2014
Cada coisa em seu lugar
Descobri que a minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente em ordem, mas pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reacção contra a minha negligência, que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma mas sim um signo do zodíaco.
Gabriel García Marquez in Memória das minhas putas tristes
Gabriel García Marquez in Memória das minhas putas tristes
Thursday, February 6, 2014
Je t´aime, moi non plus
e adormece.
e logo aos mãos se fecham
e encaminham.
Maria Teresa Horta
Wednesday, February 5, 2014
Monday, February 3, 2014
you are welcome to elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny
Sunday, February 2, 2014
com fúria e raiva
Com fúria e raiva acusa o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
(...)
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz jogo e poder
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra.
Sophia de Mello Breyner in "O nome das coisas"
E o seu capitalismo das palavras
(...)
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz jogo e poder
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra.
Sophia de Mello Breyner in "O nome das coisas"
Monday, January 27, 2014
Tonight is what it means to be young
Confesso ter uma paixão assolapada pelo Michael Paré, quase como a que tenho pelo Michael Pitt ou o David Guilmour!É o que faz ver "Streets of fire" em plenos anos 90, com seis anos umas mil vezes até aos dez!!
Friday, January 24, 2014
Thursday, January 23, 2014
a tua ausência encosta-me a um muro derrubado.
José Carlos Sousa [Villar] in Entre tantos
*Cantei em 2003 no lançamento deste livro. Por inércia nunca o tinha lido!Creio que quis adiar esse momento.Passados 10 anos, precisamente, peguei nele.Li cada silaba, cada palavra, cada verso...numa noite destas, antes de adormecer.Encontrei este poema.Pronto!
José Carlos Sousa [Villar] in Entre tantos
*Cantei em 2003 no lançamento deste livro. Por inércia nunca o tinha lido!Creio que quis adiar esse momento.Passados 10 anos, precisamente, peguei nele.Li cada silaba, cada palavra, cada verso...numa noite destas, antes de adormecer.Encontrei este poema.Pronto!
Saudades do Brasil em Portugal por Carminho
Um dia Vinicius de Moraes compôs um Fado para a Amália. Este!!
Feito com Amor, segundo ele.E não há dúvidas.
Dói de tão soberbo!!
Wednesday, January 22, 2014
Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...
Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...
Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .
Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...
Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...
Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .
Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'
Sunday, January 19, 2014
De amor nada mais resta que um Outubro
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto.
Natália Correia in Poesia Completa
e quanto mais amada mais desisto.
Natália Correia in Poesia Completa
Saturday, January 18, 2014
Friday, January 17, 2014
Gente à procura de Gente
uma certa quantidade
Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
Mário Cesariny
Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
Mário Cesariny
Wednesday, January 15, 2014
A dor de todas as ruas vazias
deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al-Berto
Horto de Incêndio
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al-Berto
Horto de Incêndio
Monday, January 13, 2014
A mulher dos vinte poemas
Perguntam-me sempre quem é a mulher dos "Vinte Poemas". É difícil responder. As duas ou três que se entrelaçam nesta melancólica e ardente poesia correspondem, digamos, a Marisol e Marisombra. Marisol é o idílio da província encantada, com imensas estrelas nocturnas e olhos escuros como o céu molhado de Temuco. É ela que figura, com a sua alegria e a sua vivaz beleza, em quase todas as páginas, rodeada pelas águas do porto e pela meia-lua sobre as montanhas. Marisombra é a estudante da capital. Boina parda, olhos dulcíssimos, o constante aroma a madressilva do errante amor estudantil, o sossego físico dos apaixonados encontros nos esconderijos da urbe.
Pablo Neruda in "Confesso que vivi"
Saturday, January 11, 2014
Thursday, January 9, 2014
Um Amor
Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.
Nuno Júdice, in "A Partilha dos Mitos"
*Decidi regressar neste ano de 2014, com um poema de Amor.
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.
Nuno Júdice, in "A Partilha dos Mitos"
*Decidi regressar neste ano de 2014, com um poema de Amor.
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