Thursday, March 29, 2012

A acção é uma espécie de purificação da alma

"(...)Toda a influência é imoral, sob o ponto de vista científico. Porque exercer a nossa influência sobre alguém é darmos a própria alma. Esse alguém deixa de pensar com os seus pensamentos que lhe são inerentes, ou de se inflamar com as suas próprias paixões. As suas virtudes não lhe são reais. Os seus pecados - se é que os pecados existem - são emprestados(...)Hoje as pessoas temem-se a si próprias. Esqueceram o mais nobre de todos os deveres: o dever que cada um tem para consigo mesmo. As suas almas andam famintas e nuas(...)Se um homem vivesse a sua vida em toda a plenitude, desse forma a todos os sentimentos, expressão a cada pensamento, creio que o mundo ganharia um novo impulso de alegria que nos levaria a esquecer todos os males da época medieval e nos levaria a regressar ao ideal helénico, talvez mesmo a algo mais depurado e rico que o ideal helénico. Mas o mais ousado de todos nós teme-se a si mesmo. O selvagem mutilado que nós somos sobrevive na auto-rejeição, na auto-negação que nos corrompe a vida, que a frustra. Somos punidos pelas nossas rejeições e renúncias. Cada impulso que tentamos asfixiar fica a fermentar no nosso espírito e envenena-nos. O corpo peca uma vez e acaba com o pecado, porque a acção é uma espécie de expurgação, de purificação. E nada fica, a não ser a lembrança de um prazer, ou o luxo de um pesar, de um remorso. Ceder a uma tentação é a única maneira de nos libertarmos dela. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio e saudade das coisas a que se proíbe, com o desejo por tudo o que as suas próprias leis monstruosas e ilegais converteram em monstruosidade e ilegalidade. Diz-se que as grandes realizações do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e só aí, que ocorrem os grandes erros do mundo(...)"

Oscar Wilde in O retrato de Dorian Gray

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