Monday, January 16, 2012

Romântica ou Saudade?

Rasgaram as névoas

Que há pouco embrulhavam

As margens lendárias do rio Mondego;

As águas acordam

E ficam pasmadas

Reflectindo o azul da manhã radiante...



Sinto-me tão perto de tudo que é triste

Que os meus olhos sofrem

Com esta alegria - talvez provocante.



Coimbra, serena, mostra o seu contorno

Airosa e gentil - como fascinada

Na luz que é mais viva, difusa, doirada...



Tudo nela canta no alto silêncio

Das coisas divinas que falam do amor;

- Aqui, uma folha que tombou na aragem,

Mais além, uma flor...



Altiva -

Guarda na história dos tempos

A lembrança diluída

Dos seus romances guerreiros

Mesclados de sonho.

E a paisagem nua

Mais lúcida e bela,

Recortada e linda

Nesta claridade... - o dia floresce,

Aumenta - e as águas,

Translúcidas, verdes

- São verdes agora!

Ganham movimento,

Têm vibração,

Murmuram,

E passam

- Como aquela voz que encheu de saudade

O meu coração


António Botto

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