Saturday, January 21, 2012

Lusitânia no Bairro Latino por Júlio Pomar

Retratos de Mário de Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor e Amadeo de Souza-Cardoso
1985

Pudesse eu

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fado do ciúme

Se não esqueceste
O amor que me dedicaste,
E o que escreveste
Nas cartas que me mandaste,
Esquece o passado
E volta para meu lado,
Porque já estás perdoado
De tudo o que me chamaste.

Volta meu querido,
Mas volta como disseste,
Arrependido
De tudo o que me fizeste,
Haja o que houver
Já basta p'ra teu castigo
Essa mulher
Que andava agora contigo.

Se é contrafeito
Não voltes, toma cautela
Porque eu aceito
Que vivas antes com ela
Pois podes crer
Que antes prefiro morrer
Do que contigo viver
Sabendo que gostas dela.

Só o que eu peço
É uma recordação,
Se é que mereço
Um pouco de compaixão,
Deixa ficar
O teu retrato comigo,
P'ra eu julgar
Que ainda vivo contigo.


Amadeu do Vale e Frederico Valério

Monday, January 16, 2012

Boa Noite Solidão

Romântica ou Saudade?

Rasgaram as névoas

Que há pouco embrulhavam

As margens lendárias do rio Mondego;

As águas acordam

E ficam pasmadas

Reflectindo o azul da manhã radiante...



Sinto-me tão perto de tudo que é triste

Que os meus olhos sofrem

Com esta alegria - talvez provocante.



Coimbra, serena, mostra o seu contorno

Airosa e gentil - como fascinada

Na luz que é mais viva, difusa, doirada...



Tudo nela canta no alto silêncio

Das coisas divinas que falam do amor;

- Aqui, uma folha que tombou na aragem,

Mais além, uma flor...



Altiva -

Guarda na história dos tempos

A lembrança diluída

Dos seus romances guerreiros

Mesclados de sonho.

E a paisagem nua

Mais lúcida e bela,

Recortada e linda

Nesta claridade... - o dia floresce,

Aumenta - e as águas,

Translúcidas, verdes

- São verdes agora!

Ganham movimento,

Têm vibração,

Murmuram,

E passam

- Como aquela voz que encheu de saudade

O meu coração


António Botto

Grande Noite de Fado




A Sunday Smile - Beirut

Sunday, January 8, 2012

Estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te

vou perdendo a noção desta subtileza.

Aqui chegado até eu venho ver se me apareço

e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho



Muita vez vim esperar-te e não houve chegada

De outras, esperei-me eu e não apareci

embora bem procurado entre os mais que passavam.

Se algum de nós vier hoje é já bastante

como comboio e como subtileza

Que dê o nome e espere. Talvez apareça.


Mário Cesariny

Pass this on



Lembra-te

Lembra-te

que todos os momentos

que nos coroaram

todas as estradas

radiosas que abrimos

irão achando sem fim

seu ansioso lugar

seu botão de florir

o horizonte

e que dessa procura

extenuante e precisa

não teremos sinal

senão o de saber

que irá por onde fomos

um para o outro

vividos


Mário Cesariny