Monday, December 15, 2008

O meu amor

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca,quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minha alma se sentir beijada,ai.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos,viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo,ri do meu umbigo
E me crava os dentes,ai.

Eu sou sua menina,viu?Ele é o meu rapaz.
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca,quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita,ai.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios,de me beijar os seios,
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa,ai.

Eu sou sua menina,viu?Ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.

Vinícius de Moraes e Chico Buarque
*Belo,não é?Aconselho para completar o deleite este poema cantado por Cristina Branco,foi assim que o conheci.Se bem que nada melhor que ouvi-lo pela voz de Chico Buarque.Um beijo

Valsinha by Chico Buarque


*Que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz!

Friday, December 12, 2008

O essencial é invísivel aos olhos

(...)a raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho durante muito tempo.
- Cativa-me,por favor! - acabou finalmente por pedir.
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho,- mas não tenho muito tempo.Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...
- Só conhecemos o que cativamos - disse a raposa. - Os homens deixaram de ser amigos.
Se queres um amigo,cativa-me!
- E tenho de fazer o quê? - disse o principezinho.
- Tens de ter muita paciência.Primeiro,sentaste longe de mim,assim,na relva.Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada.A linguagem é uma fonte de mal-entendidos.Mas podes sentar-te cada dia um bocadinho mais perto...
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo á mesma hora - disse a raposa. - Por exemplo,se vieres ás quatro horas,ás três,já eu começo a estar feliz.E quanto mais perto for da hora,mais feliz me sinto.Ás quatro em ponta hei-de estar toda agitada e toda inquieta,fico a conhecer o preço da felicidade!Mas se chegares a uma hora qualquer,eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração,a vesti-lo,a pô-lo bonito...Precisamos de rituais.
Assim o principezinho cativou a raposa.Mas quando chegou a hora da partida,a raposa disse: - Ai,que me vou por a chorar...
- A culpa é tua,disse o principezinho.Eu não te queria fazer mal,mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Pois quis.
- Mas agora vais-te por a chorar!
- Pois vou.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Isso é que ganhei!Por causa da cor do trigo...Anda,vai ver outra vez as rosas.Vais perceber que a tua é única no mundo.Quando vieres ter comigo,dou-te um presente de despedida:conto-te um segredo.
- Adeus...
- Adeus,disse a raposa.Vou contar-te o tal segredo.É muito simples:só se vê bem com o coração.O essencial é invisível aos olhos...
- O essencial é invisível aos olhos,repetiu o principezinho,para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa...repetiu o principezinho,para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade,disse a raposa.Mas tu não te deves esquecer dela.Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativas.Tu és responsável pela tua rosa...

Excerto de "O Principezinho", de Antoine de Saint-Exupéry

Hable con ella

Thursday, December 11, 2008

Terror de te amar

Terror de te amar num sitio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tuesday, December 2, 2008

Como não posso cantar-te hoje

*Canto amanhã!

Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
á roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade