Thursday, March 27, 2008

Análise

Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar,que,ao entreter
Os meus olhos nos teus,perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar,e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te,e ao saber-me
Sabendo que tu és,que,só por ter-me
Consciente de ti,nem a mim sinto.
E assim,neste ignorar-me a ver-te,minto
A ilusão da sensação,e sonho,
Não te vendo,nem vendo,nem sabendo
Que te vejo,ou sequer que sou,risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.


Fernando Pessoa