Monday, March 31, 2008

Coisas que acontecem

Não te escondas do sofrimento
porque o medo seduzirá a tua liberdade
engravidando-a num descuido.
E passarás o resto dos teus dias
tomando conta dos filhos
dum pai ausente
que anda festejando o seu triunfo
no teu tempo
no teu espaço
no deserto de mofo da tua solidão.
E tu,mulher maltratada,
sem tempo nem espaço,
hipócrita vítima da Vida,
queixas-te em cada respiro
do que deixaste passar ao lado
como agora,
ocupada como estás
em mudar fraldas
de merdas sem amor
e de mijo pestilento
como o teu peito
seco de leite
daquele amante doce
que acariciou ás tuas cicatrizes
nas crostas dessa inocência
que preferiste anestesiar
em charros de medo
esnifando um pó de efeito emprestado.
Hoje,o choro dos teus filhos,
reproduzidos em teu ventre como ratas,
moscas ávidas de estrume,
acordaram-te do sono
desse ópio que nunca te solta
desse sofrimento que já não há esconderijo.

Alfredo Hervías Y Mendizábal
in Egoísta

Sunday, March 30, 2008

She´s a femme fatale

Here she comes,you better watch your step
She´s going to break your heart in two,it´s true
It´s not hard to realize
Just look into her false colored eyes
She´s builds you up to just put you down,what a clown
Cause everybody knows
She´s a femme fatale
The things she does to please
She´s a femme fatale
She´s just like a little tease
She´s a femme fatale
See the way she walks
Hear the way she talks
You´re put down in her book
You´re number 37,have a look
She´s going to smile to make you frown,what a clown
Little boy,she´s from the street
Before you start,you´re already beat
She´s gonna play you for a fool,yes it´s true
Cause everybody knows
She´s a femme fatale
The things she does to please
She´s a femme fatale
She´s just a little tease
She´s a femme fatale
See the way she walks
Hear the way she talks.


The Velvet Underground

Chuva

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudade
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
á saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai...meu choro de moça perdida
gritava á cidade
que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
meu segredo á cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade.


Jorge Fernando
*Porque é o fado que mais gosto de cantar e porque ontem,choveu.

Não,não é cansaço

Não,não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo ás avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
(...)Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer(...)


Álvaro de Campos

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo,ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas-
Essas e o que faz falta nelas eternamente-;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada-
Três tipos de idealistas,e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo,ou um pouco mais,se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada,isto é,isto...
Para mim só um grande,um profundo ,
E,ah com que felicidade infecundo,cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo,íssimo,íssimo
Cansaço...


Álvaro de Campos

Thursday, March 27, 2008

Análise

Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar,que,ao entreter
Os meus olhos nos teus,perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar,e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te,e ao saber-me
Sabendo que tu és,que,só por ter-me
Consciente de ti,nem a mim sinto.
E assim,neste ignorar-me a ver-te,minto
A ilusão da sensação,e sonho,
Não te vendo,nem vendo,nem sabendo
Que te vejo,ou sequer que sou,risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.


Fernando Pessoa

Monday, March 24, 2008

Anoiteço ou a tua ausência

Anoiteço
o mundo lá fora desperta
de sonhos imensos e inquietações profundas amanhece
A noite que trago comigo
agarrada contra o peito,
tanta
vence o azul intenso que
pela janela da cozinha entra
enquanto procuro nos armários
sossego para a minha alma
de luto!
Insaciável
venço-me e decido anoitecer.
Esta minha incongruência com o mundo
que me rodeia,conduz-me á solidão
estar só...por escolha ou não
entre a confusão o turbilhão a multidão.
Dou comigo a fazer rima...imagino o que seria
se gostasse de rima.
Não,seria harmonia a mais
é isso,
a minha vida não rima
com a vida de ninguém mais,
nem com mais nada.
Procura-me
e que a luz dos teus olhos
se emaranhem no meu azul
e não me deixem anoitecer
nunca mais.


Bárbara Bentes

Tuesday, March 18, 2008

Poema

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes,loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem ás escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca.


Mário Cesariny

Monday, March 17, 2008

The frozen world

Won´t you open for me
The door to your ice world
To your white desert

I just want to stare
Out over these snowfields
Until we are one again

We belong to the frozen world

When the ice begins to thaw
Becomes the sea
Oh,you will see
How beautiful we can be

Everything is calm
At the end of the planet
In our white desert

The sun kissed the ice
It glistens for me
And we are one again

We belong to the frozen world

When the ice begins to thaw
Becomes the sea
Oh,you will see
How beautiful we can be.


Emilie Simon

Sunday, March 16, 2008

Sempre para sempre

Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor de pele
Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante
Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão
Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado
Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue,bem quente
Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca,nunca tocado
Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso
Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada,mas nada
Te faz contente,me faz contente
Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido
Há amor eterno
Sem nunca,talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez
Há amor de certezas
Que não trará dor
Amor que afinal
É amor,
Sem amor
O amor é tudo,
Tudo isto
E nada disto
Para tanta gente
É acabar de maneira igual
E recomeçar
Um amor diferente
Sempre,para sempre
Para sempre.


Miguel Majer

Wednesday, March 12, 2008

A libélula

"(...)o facto,gravíssimo aliás, de ter sido encontrada no ventre de uma libélula uma colecção completa de lápis de cor."

in a vida de Kandinsky,
Mário Cesariny

Monday, March 10, 2008

A ver vamos

Quando criei este blog,não tinha nenhuma intenção em particular,pretendia partilhar algumas coisas bonitas para meu prazer,e para deleite dos meus queridos leitores,por quem tenho um enorme afecto e simpatia!
A verdade,é que sem contar isto começou a dizer muito de mim,dos meus anseios,das minhas vontades,dos episódios,muitas vezes bizarros do meu quotidiano...tornou-se pessoalíssimo.E foi sem querer,sem querer.
Ora muito bem,posto isto reparei entretanto que ainda não tinha manifestado,com toda a sua amplitude o meu carinho pelo Fado.Aqueles que me conhecem e acompanham sabem o que o Fado e tudo o que implica,significam para mim.Ontem,quando publiquei o Fado "A sós com a Noite" e a obra de José Malhoa(que adorava ter em casa) que retrata o Fado de uma forma sublime e genuína,pensei que era urgente escrever algo sobre o Fado,e o papel que tem tido na minha vida,nas minhas condutas e nos meus sonhos.Vou continuar por aqui a ouvir magias,deixando-me imbuir para escrever uma coisa bonita para aqui publicar!Espero que não tarde...ainda pode ser que seja hoje.A ver vamos!

O Fado de José Malhoa

A sós com a Noite

A luz que se arredonda
Alongando uma sombra sozinha
A saudade a bater
Uma dor que ao doer é só minha

Um desvio inquieto
Um olhar indiscreto na esquina
Um rapaz de blusão
Arrastando pela mão a menina

Passa um velho a pedir
Incapaz de sorrir pelos passeios
Um travesti que quer
Assumir-se mulher sem receios

O alarme de um carro
Um cigarro apagado indulgente
Um cheiro inusitado
O semáforo fechado para a gente

Sobe o fado de tom
E o fadista que é bom improvisa
Estão em saldos sapatos
Desce o preço dos fatos de cor lisa

Um eléctrico cheio
Uma voz de permeio vai chover
Bate forte a saudade
Como é grande a vontade de te ver...


Jorge Fernando
*Fado lindissimo,cantado pela Ana Moura.Lindamente!!

Sunday, March 9, 2008

Estamos apoyados en una roulotte bebemos sangria
charlamos mientras quemamos la noche
junto al mar
el viento fresco nos sorprende con las manos nerviosas
alrededor de los vasos empañados la ternura de una mirada
no vale para burlar la embriaguez de los amores imperfectos
sé que aún posees alguna juventud en esa sonrisa
yo ya sólo emborrachado los labios viciados por las palabras
poco tengo que decirte
te toco en el hombro hago promesas y tú riés
mientras descubrimos en el silencio cómplice del vino
que los dedos se enredáran los unos en los otros y sobre la piel
tiembla una tela de luminosa sal donde cae la noche
sobreviviremos al desgaste del amor
bebemos más
para que haya sólo deseos y no amor entre nosotros y
el muchacho que acostumbra a clavar un cuchillo rubio
en el hombro del mar
La vie est une gare,je vais bientôt partir,
Je ne dirai pas oú.
me callé
sabiendo que me llevarías a casa por el camino de la playa
tambaleantes
y mientras yo no pueda abrir de nuevo los ojos
no has de partir estoy seguro
con tu jaula llena de lunas mansas
apaciguadas.


Al Berto

Trabalhos do olhar-IV

Depois do jantar
as mulheres falam muito
os homens estão quase sempre calados
atentos
perseguem-nas com olhares ternos
os dedos movendo-se hesitantes em redor dos copos

Elas falam sem cessar riem
perdem o fôlego comem bolos
voltam a rir cada vez mais forte
bebem anis sabendo que os homens as observam
silenciosos amam-nas furtivamente no escuro das casas
importando-se pouco que elas se embriaguem
devagar...

...as mulheres falam muito
têm o riso arguto nos lábios acesos pelo anis
sempre que os homens as desejam
noite adiante...calados.

Al Berto