Monday, December 15, 2008

O meu amor

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca,quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minha alma se sentir beijada,ai.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos,viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo,ri do meu umbigo
E me crava os dentes,ai.

Eu sou sua menina,viu?Ele é o meu rapaz.
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca,quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita,ai.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios,de me beijar os seios,
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa,ai.

Eu sou sua menina,viu?Ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.

Vinícius de Moraes e Chico Buarque
*Belo,não é?Aconselho para completar o deleite este poema cantado por Cristina Branco,foi assim que o conheci.Se bem que nada melhor que ouvi-lo pela voz de Chico Buarque.Um beijo

Valsinha by Chico Buarque


*Que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz!

Friday, December 12, 2008

O essencial é invísivel aos olhos

(...)a raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho durante muito tempo.
- Cativa-me,por favor! - acabou finalmente por pedir.
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho,- mas não tenho muito tempo.Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...
- Só conhecemos o que cativamos - disse a raposa. - Os homens deixaram de ser amigos.
Se queres um amigo,cativa-me!
- E tenho de fazer o quê? - disse o principezinho.
- Tens de ter muita paciência.Primeiro,sentaste longe de mim,assim,na relva.Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada.A linguagem é uma fonte de mal-entendidos.Mas podes sentar-te cada dia um bocadinho mais perto...
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo á mesma hora - disse a raposa. - Por exemplo,se vieres ás quatro horas,ás três,já eu começo a estar feliz.E quanto mais perto for da hora,mais feliz me sinto.Ás quatro em ponta hei-de estar toda agitada e toda inquieta,fico a conhecer o preço da felicidade!Mas se chegares a uma hora qualquer,eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração,a vesti-lo,a pô-lo bonito...Precisamos de rituais.
Assim o principezinho cativou a raposa.Mas quando chegou a hora da partida,a raposa disse: - Ai,que me vou por a chorar...
- A culpa é tua,disse o principezinho.Eu não te queria fazer mal,mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Pois quis.
- Mas agora vais-te por a chorar!
- Pois vou.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Isso é que ganhei!Por causa da cor do trigo...Anda,vai ver outra vez as rosas.Vais perceber que a tua é única no mundo.Quando vieres ter comigo,dou-te um presente de despedida:conto-te um segredo.
- Adeus...
- Adeus,disse a raposa.Vou contar-te o tal segredo.É muito simples:só se vê bem com o coração.O essencial é invisível aos olhos...
- O essencial é invisível aos olhos,repetiu o principezinho,para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa...repetiu o principezinho,para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade,disse a raposa.Mas tu não te deves esquecer dela.Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativas.Tu és responsável pela tua rosa...

Excerto de "O Principezinho", de Antoine de Saint-Exupéry

Hable con ella

Thursday, December 11, 2008

Terror de te amar

Terror de te amar num sitio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tuesday, December 2, 2008

Como não posso cantar-te hoje

*Canto amanhã!

Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
á roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade

Wednesday, November 26, 2008

Chamo-te

Chamo-te porque tudo está ainda no principio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-te que sejas o presente.
Peço-te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a terra
Em primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen
*Um poema a ti,mais um!

Se tanto me dói que as coisas passem

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

The Diamond sea by Sonic Youth

Friday, November 21, 2008

Gosto de Gostar

Gosto de escrever numa cadeira confortável.Gosto de cevada.Gosto de dias frios aconchegada no quentinho.Gosto da madrugada.Gosto de bolo de arroz.Gosto de pintar as unhas.Gosto de cantar.Gosto de poesia.Gosto de vestidos de lã.Gosto do mês de Dezembro.Gosto de carinhos.Gosto do cheiro do cabelo acabado de lavar.Gosto de brincos.Gosto de passar dias inteiros na cama.Gosto de azul.Gosto de ouvir o galo a cantar pela aurora.Gosto de olhos castanhos.Gosto de estórias de encantar.Gosto de não ter medo.Gosto de pastilhas de canela.Gosto de ouvir o som do piano.Gosto de ser vaidosa e egocêntrica.Gosto de ouvir a minha mãe falar enquanto durmo.Gosto do escuro.Gosto de dançar.Gosto de ser curiosa.Gosto que não me chateiem.Gosto que gostem de mim.Gosto de fogões de lenha.Gosto de blush.Gosto de neve.Gosto das tostas mistas da minha tia.Gosto de ti.Gosto dos anos 70.Gosto de passear com boa companhia.Gosto de fotografias.Gosto de livros antigos e do seu cheiro.Gosto de boinas chapéus e afins.Gosto do meu cabelo ondulado.Gosto de magia.Gosto de chás e leite com chocolate.Gosto de jantares longos.Gosto de castanhas assadas com jeropiga.Gosto de flores no cabelo.Gosto de gostar de muitas coisas ao mesmo tempo.Gosto de sonhar.Gosto de acordar abraçada.Gosto de guitarra portuguesa.Gosto de estúpidices a que ninguém acha piada.Gosto de falar muito e pedir mais um porto...Gosto de rir.Gosto de vozes bonitas e gargalhadas.Gosto do Fado.Gosto de segredos.Gosto assim...

Thursday, November 6, 2008

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor,de esperança,
De imenso amor,de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O´Neill
*Palavras tuas,beijos nossos!

Tuesday, September 23, 2008

Azul algum dos olhos

Azul algum dos olhos
queima a figura
de um corpo
ágil
terno
doce
Horas de lua
corpos enlaçados
vaivém
reprodutores-amor
beijo-maça!

Bárbara Bentes

Saturday, September 20, 2008

Homens choro

Caminham esses homens desiludidos
 em busca de uma outra e outra fantasia
Iludidos embaraçados tímidos abraçados
Á saudade
Vagueiam empurrados por enxurradas de negócios
Egoístas sozinhos esquecidos de si
E os beijos
E os abraços
E esgotantes amorosos cansaços
Que para ganhar o pão
Aos pedintes e famintos
Dão aos pedaços.

Bárbara Bentes

O recomeço é sempre possível

Obrigada por estares sempre onde nunca encontro ninguém.

Bárbara Bentes

Struggle for Pleasure by Wim Mertens

Friday, September 19, 2008

Se tu viesses ver-me

Se tu viesses ver-me hoje á tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra:esse sabor que tinha
A tua boca...o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte...os teus abraços...
Os teus beijos...a tua mão na minha...

Se tu viesses quando,linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca

Sunday, September 7, 2008

Os teus pés

Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.

Os teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,

Eu sei que te sustentam
E que o teu doce peso
Sobre eles se ergue.

A tua cintura e os teus seios,
A duplicada púrpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram voo,
A larga boca de fruta,
A tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.

Pablo Neruda

Wednesday, August 27, 2008

Silêncio

Há qualidades incorpóreas,de existência
dupla,nas quais segunda vida se produz,
como a entidade dual da matéria e da luz,
De que o sólido e a sombra espelham a evidência.

Há pois,duplo silêncio;o do mar e o da praia,
do corpo e da alma;um,mora em deserta região
que erva recente cubra e onde,solene,o atraia
lastimoso saber,onde a recordação

O dispa de terror,seu nome é "nunca mais",
E o silêncio corpóreo.A esse,não temais!
Nenhum poder do mal ele tem.Mas,se uma hora

Um destino precoce(oh,destinos fatais!)
Vos levar a regiões soturnas,que apavora
sua sombra,elfo sem nome,ali onde humana palma

Jamais pisou,a Deus recomendai vossa alma!

Edgar Allan Poe

Thursday, August 7, 2008

Ensaio

Os dedos longos,
Impacientes e frios
Acariciam-lhe a nuca...
Movidos por impulsos
Ansiosos e egoístas
De aquecerem o corpo,
Que os transporta!
Os olhos,esses,
distraídos e desejosos
nada vêem,
e á primeira oportunidade
mudam de alvo.
Do peito,
Profundo e visceral
a vontade de um amor
sublime,bruto quase degradante
Revela-se!
Nos semblantes,
os lábios rosados
sem dó e sem pudor
Atrevem-se!
Em mútuo e eterno
consentimento,
num prazer
de sonho e quebranto
Consomem-se!
E contemplando-se
numa curiosidade
quase infantil,
Entregam-se!

Bárbara Bentes

Glósóli by Sigur Rós

Ainda

No outro dia,
pedi a um mágico
que me levasse a alma.
Num pedaço de chita branca
com florzinhas miudinhas a enrolou.
Levou-a aconchegada contra o peito...
Não a tenho já,é certo!
Mas sinto,daquele sentir...ainda
a leveza do teu fascínio.
Ah,esta alma que te pertence
já não é,aqui!
Foi levada,enrolada e aconchegada
Num pedaço de chita branca.

Bárbara Bentes

Tuesday, July 1, 2008

Paralelos que se encontram no infinito

Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objectos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
A olharem-se...
Pensar talvez:
"Paralelos que se encontram no infinito..."
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

Pablo Neruda

Tuesday, June 10, 2008

Autumn leaves by Nat King Cole

Porque a cantei no sábado também...e sempre!Não poderia ter sido em lugar mais propicio,Serralves.Só precisava ser Outono.

Saturday, June 7, 2008

Hoje começa a epopeia

Daqui a uns escassos minutos Portugal vai jogar:)e vai ganhar!!Escolhi o Porto para jantar com muito boa gente e ver o jogo.Mais logo,espero consoante o combinado dar um saltinho a Serralves!Hoje sim,é um encontro de velhos amigos...ah,e está de sol:)começa a epopeia,da melhor maneira...inté

Monday, May 26, 2008

Amor feito antítese

Medidas,combinações,
verdades...
coincidências
fugas eternas da vontade!

Paralelismos grosseiros
magias antagónicas
paradoxos de encantamento

Chegada
Saudade apertada
mão agarrada
boca sedenta
evidências.

Claras evidências
Nocturnos encontros
descabidos poemas
em cheiro nosso.

Bárbara Bentes

Sunday, May 25, 2008

Paço da Vadiagem

eram apenas estórias
narradas por ti.
possuíam cunho
ardiloso.

mantive-me inexoravelmente
reticente.
cessei de te degustar.

foram consoantes que
derrocaram no estaleiro.
insanidades conspiradas,
viciadas.

concebi te salvar
de mim.
arrostei resistências.
engenhosa antítese

era tédio que teu
tempero exalava.
orgasmo debruçado
no bege divã.
deleite do tédio.

os morangos estavam
bebados.
esquivaram-se sem licença.
com licença.
minha língua amargava.

o lençol que me enrolava,
despia tua cútis.
cândida ojeriza sem pudor.
lamentações.

pálpebras impetuosas
incitaram preclaros cílios.
danada presunção.

(...)

desapercebido,
decretei moratória.

Celso Miranda de Carvalho

Tuesday, May 20, 2008

More than this by Bryan Ferry

Estou a ouvir esta música desde que acordei...tenho de ver o "Lost in Translation" again!Há dias assim...Obrigada,Nuno!Afinal era como dizias...e aqui está!Se não fosses tu,não havia video... e outras coisas mais:)

Monday, May 19, 2008

Temos o voo do coração na ponta dos dedos

(...)temos o voo do coração na ponta dos dedos
Na garganta ficou-nos um travo acetinado de corpos
Um rasto prateado de correrias pela cidade(...)
Resta-nos adormecer onde eclode a borboleta
E balbuciar dentro do sonho as palavras que nunca
Ousaremos dizer(...)
Amolecidos corpos fissuram-se
Explodem
A cidade ecoa noite adiante esse grito
Daquela maneira com que as línguas se tangem ou o
Mar entra subitamente pela casa de alguém(...)
Mas é noite,
Dizíamos
É noite,
dentro do meu coração de papel,
Falemos baixinho
Para não nos acordarmos(...)

Al Berto

Tuesday, May 13, 2008

Recomeça...se puderes

De nenhum fruto queiras só a metade

Miguel Torga

Wednesday, April 23, 2008

Nick Cave no Porto

Cá estou a saciar a minha vontade!Que afastamento tão curto,devem estar a pensar...Não,continuo no meu retiro destas bandas.A verdade é que depois de um concerto delicioso de Nick Cave,o meu senhor,não posso deixar de vos deixar aqui só um cheirinho do que aconteceu,ontem no Coliseu!!Pois bem,finalmente fui a um concerto do protagonista da generalidade das músicas que fazem parte da banda sonora da minha vida.Que bom,e foi um presente...melhor ainda,da melhor companhia também!Depois de uma tarde muito bem passada de "matar saudade" e passear á beira rio com o frio a congelar-me a cara mas com um sorriso e um brilho nos olhos maravilhoso,chegou a hora do concerto.Estava ansiosa,confesso!Expectante,também...Nick Cave,portou-se muito bem,interagiu com o público,tem uma energia e um carisma em palco extraordinários,com o charme que já lhe é conhecido,tentou falar português"Quê?" e a sua atitude provocadora veio ao de cima,não pelos melhores motivos...creio!Este concerto foi essencialmente uma apresentação do novo trabalho"Dig,Lazarus,Dig",e como tal cantou essencialmente músicas deste novo projecto deixando os seus fãs e seguidores um pouco entristecidos pela falta de clássicos como "Into my arms","Henry Lee","Spell" e outros mais.Não cantou alguns destes temas por teimosia e provocação(mas se não fosse assim não era o nosso Nick,não é?)deu-me a impressão que começou num dos "encores" a cantar "Into my arms" mas não avançou deixando todos com água na boca,dizendo"I´ll finish that later"(mas não foi o que aconteceu),tristemente!Dai dizer que a sua atitude provocadora não foi no que diz respeito a esta parte tão boa.Cantou desde"The ship song" a "Deanna" e outras também já sobejamente conhecidas,mas não as minhas favoritas!Contudo,adorei o concerto,adorei a envolvência,e constatei que não havia muita gente da minha idade entre a audiência...o público de Nick é de outra faixa etária daí o facto de absorverem e viverem o concerto de um jeito mais calmo e sereno,mesmo assim dei os meus passinhos de dança,ali a escassos metros da estrela...com a melhor pessoa como companhia!Não é?!É...foi assim,muito bom só faltaram mesmo aquelas,para ser perfeito!Perfeito...:)

Sunday, April 13, 2008

Porque a Primavera chegou

Amanhece nas cortinas envelhecidas e pesadas do quarto...finas mas persistentes lâmparinas de sol,invadem toda a parte!Pesadas e grossas cortinas...que negligentemente despertam os corpos desses meandros do sonho!
Entram para ficar ao de leve,as lâmparinas,e vão ganhando cada vez mais força.Será a força da Primavera a tentar travar uma luta com o sonho?!Ei-la vencedora...com os raios de sol ilumina as almas e com os cantos dos pássaros matutinos e enamorados acaricia os ouvidos destes corpos cansados de chuvas e tormentas...e de pés molhados.Depois de tentativas frustradas o sonho vai-se embora já esgotado e o corpo sorridente ainda esquecido de si,ergue-se á luz!Lá estão elas,bisbilhoteiras cortinas que com o nervosismo foram aquecendo,queimando agora as mãos dormentes provocando-lhes o estremecimento.São irmãs mas nunca se relacionaram muito bem e durante o dia afastadas dão tréguas aos conflitos íntimos que alimentam durante o sonho daquele corpo...
Todo o quarto,pequeno e aconchegante é luz e quente!Apelativo ao abandono...a Primavera chegou e instalou-se neste quarto da janela pequena e alta.Diz-se que,amante de anos do Mondego...dizem por ai que passam os dias e as noites a olharem um para o outro,num encantamento de quebranto!
É,está ai...e chegou sem bater á porta!O corpo deslumbrado lança-se á rua,desfilando nesse sol que é seu,oferecido pela manhã.Sacode os cabelos ainda húmidos e com cheiro a camomila,de um lado ao outro,fecha os olhos a sorrirem de orelha a orelha e apaixonadamente sobe a calçada a caminho da eternidade...Porque a Primavera,chegou!

Spring by Lempicka




*E a Primavera chegou também!

Thursday, April 10, 2008

Quando a gente lá chegar

Trocaram o primeiro olhar numa manhã de Verão,
quando a cidade se agitava em plena confusão.
Ela sorriu,ele sorriu e tudo foi tão natural
que eles não perderam mais tempo e arrancaram em direcção ao sol.
Ela sorriu,ele sorriu e tudo foi tão natural
que eles nem disseram adeus quando a noite chegou para os separar.


Jorge Palma
*Estou com um sorriso escancarado!É verdade,não vos conto aqui a tarde destes amantes,mas o Jorge contou.Procurem!

Sunday, April 6, 2008

Deliciosos

Into my arms

I don´t believe in an interventionist God
But I know,darling,that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms

Into my arms,O Lord
Into my arms,O Lord
Into my arms,O Lord
Into my arms

And I don´t believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that´s true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk ,like Christ,in grace and love
And guide you into my arms

Into my arms,O Lord
Into my arms,O Lord
Into my arms,O Lord
Into my arms

But I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down,me and you
So keep your candlew burning
And make her jouney bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms,O Lord
Into my arms,O Lord
Into my arms,O Lord
Into my arms


Nick Cave and the bad seeds
*Bonito,não é?!Uma das músicas e letras mais bonitas de sempre.
And I believe in love...

Thursday, April 3, 2008

Desilusão

Sonhos de outrora
animam-se na alma
sedenta de novidade
e futuro.
Rejuvenescido e vaidoso
convencimento
pega nela e deita-a
no colo.
O corpo
move-se em passos
de tarde.
Negligente companheiro
da alma
que a protege
mas não guarda
e sem saber
lança-a no abismo.
Nos seus cuidados
superficiais
contenta-se
em dar-se a beber
à alma
de um estranho.


Bárbara Bentes

Monday, March 31, 2008

Coisas que acontecem

Não te escondas do sofrimento
porque o medo seduzirá a tua liberdade
engravidando-a num descuido.
E passarás o resto dos teus dias
tomando conta dos filhos
dum pai ausente
que anda festejando o seu triunfo
no teu tempo
no teu espaço
no deserto de mofo da tua solidão.
E tu,mulher maltratada,
sem tempo nem espaço,
hipócrita vítima da Vida,
queixas-te em cada respiro
do que deixaste passar ao lado
como agora,
ocupada como estás
em mudar fraldas
de merdas sem amor
e de mijo pestilento
como o teu peito
seco de leite
daquele amante doce
que acariciou ás tuas cicatrizes
nas crostas dessa inocência
que preferiste anestesiar
em charros de medo
esnifando um pó de efeito emprestado.
Hoje,o choro dos teus filhos,
reproduzidos em teu ventre como ratas,
moscas ávidas de estrume,
acordaram-te do sono
desse ópio que nunca te solta
desse sofrimento que já não há esconderijo.

Alfredo Hervías Y Mendizábal
in Egoísta

Sunday, March 30, 2008

She´s a femme fatale

Here she comes,you better watch your step
She´s going to break your heart in two,it´s true
It´s not hard to realize
Just look into her false colored eyes
She´s builds you up to just put you down,what a clown
Cause everybody knows
She´s a femme fatale
The things she does to please
She´s a femme fatale
She´s just like a little tease
She´s a femme fatale
See the way she walks
Hear the way she talks
You´re put down in her book
You´re number 37,have a look
She´s going to smile to make you frown,what a clown
Little boy,she´s from the street
Before you start,you´re already beat
She´s gonna play you for a fool,yes it´s true
Cause everybody knows
She´s a femme fatale
The things she does to please
She´s a femme fatale
She´s just a little tease
She´s a femme fatale
See the way she walks
Hear the way she talks.


The Velvet Underground

Chuva

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudade
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
á saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai...meu choro de moça perdida
gritava á cidade
que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
meu segredo á cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade.


Jorge Fernando
*Porque é o fado que mais gosto de cantar e porque ontem,choveu.

Não,não é cansaço

Não,não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo ás avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
(...)Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer(...)


Álvaro de Campos

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo,ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas-
Essas e o que faz falta nelas eternamente-;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada-
Três tipos de idealistas,e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo,ou um pouco mais,se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada,isto é,isto...
Para mim só um grande,um profundo ,
E,ah com que felicidade infecundo,cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo,íssimo,íssimo
Cansaço...


Álvaro de Campos

Thursday, March 27, 2008

Análise

Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar,que,ao entreter
Os meus olhos nos teus,perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar,e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te,e ao saber-me
Sabendo que tu és,que,só por ter-me
Consciente de ti,nem a mim sinto.
E assim,neste ignorar-me a ver-te,minto
A ilusão da sensação,e sonho,
Não te vendo,nem vendo,nem sabendo
Que te vejo,ou sequer que sou,risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.


Fernando Pessoa

Monday, March 24, 2008

Anoiteço ou a tua ausência

Anoiteço
o mundo lá fora desperta
de sonhos imensos e inquietações profundas amanhece
A noite que trago comigo
agarrada contra o peito,
tanta
vence o azul intenso que
pela janela da cozinha entra
enquanto procuro nos armários
sossego para a minha alma
de luto!
Insaciável
venço-me e decido anoitecer.
Esta minha incongruência com o mundo
que me rodeia,conduz-me á solidão
estar só...por escolha ou não
entre a confusão o turbilhão a multidão.
Dou comigo a fazer rima...imagino o que seria
se gostasse de rima.
Não,seria harmonia a mais
é isso,
a minha vida não rima
com a vida de ninguém mais,
nem com mais nada.
Procura-me
e que a luz dos teus olhos
se emaranhem no meu azul
e não me deixem anoitecer
nunca mais.


Bárbara Bentes

Tuesday, March 18, 2008

Poema

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes,loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem ás escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca.


Mário Cesariny

Monday, March 17, 2008

The frozen world

Won´t you open for me
The door to your ice world
To your white desert

I just want to stare
Out over these snowfields
Until we are one again

We belong to the frozen world

When the ice begins to thaw
Becomes the sea
Oh,you will see
How beautiful we can be

Everything is calm
At the end of the planet
In our white desert

The sun kissed the ice
It glistens for me
And we are one again

We belong to the frozen world

When the ice begins to thaw
Becomes the sea
Oh,you will see
How beautiful we can be.


Emilie Simon

Sunday, March 16, 2008

Sempre para sempre

Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor de pele
Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante
Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão
Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado
Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue,bem quente
Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca,nunca tocado
Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso
Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada,mas nada
Te faz contente,me faz contente
Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido
Há amor eterno
Sem nunca,talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez
Há amor de certezas
Que não trará dor
Amor que afinal
É amor,
Sem amor
O amor é tudo,
Tudo isto
E nada disto
Para tanta gente
É acabar de maneira igual
E recomeçar
Um amor diferente
Sempre,para sempre
Para sempre.


Miguel Majer

Wednesday, March 12, 2008

A libélula

"(...)o facto,gravíssimo aliás, de ter sido encontrada no ventre de uma libélula uma colecção completa de lápis de cor."

in a vida de Kandinsky,
Mário Cesariny

Monday, March 10, 2008

A ver vamos

Quando criei este blog,não tinha nenhuma intenção em particular,pretendia partilhar algumas coisas bonitas para meu prazer,e para deleite dos meus queridos leitores,por quem tenho um enorme afecto e simpatia!
A verdade,é que sem contar isto começou a dizer muito de mim,dos meus anseios,das minhas vontades,dos episódios,muitas vezes bizarros do meu quotidiano...tornou-se pessoalíssimo.E foi sem querer,sem querer.
Ora muito bem,posto isto reparei entretanto que ainda não tinha manifestado,com toda a sua amplitude o meu carinho pelo Fado.Aqueles que me conhecem e acompanham sabem o que o Fado e tudo o que implica,significam para mim.Ontem,quando publiquei o Fado "A sós com a Noite" e a obra de José Malhoa(que adorava ter em casa) que retrata o Fado de uma forma sublime e genuína,pensei que era urgente escrever algo sobre o Fado,e o papel que tem tido na minha vida,nas minhas condutas e nos meus sonhos.Vou continuar por aqui a ouvir magias,deixando-me imbuir para escrever uma coisa bonita para aqui publicar!Espero que não tarde...ainda pode ser que seja hoje.A ver vamos!

O Fado de José Malhoa

A sós com a Noite

A luz que se arredonda
Alongando uma sombra sozinha
A saudade a bater
Uma dor que ao doer é só minha

Um desvio inquieto
Um olhar indiscreto na esquina
Um rapaz de blusão
Arrastando pela mão a menina

Passa um velho a pedir
Incapaz de sorrir pelos passeios
Um travesti que quer
Assumir-se mulher sem receios

O alarme de um carro
Um cigarro apagado indulgente
Um cheiro inusitado
O semáforo fechado para a gente

Sobe o fado de tom
E o fadista que é bom improvisa
Estão em saldos sapatos
Desce o preço dos fatos de cor lisa

Um eléctrico cheio
Uma voz de permeio vai chover
Bate forte a saudade
Como é grande a vontade de te ver...


Jorge Fernando
*Fado lindissimo,cantado pela Ana Moura.Lindamente!!

Sunday, March 9, 2008

Estamos apoyados en una roulotte bebemos sangria
charlamos mientras quemamos la noche
junto al mar
el viento fresco nos sorprende con las manos nerviosas
alrededor de los vasos empañados la ternura de una mirada
no vale para burlar la embriaguez de los amores imperfectos
sé que aún posees alguna juventud en esa sonrisa
yo ya sólo emborrachado los labios viciados por las palabras
poco tengo que decirte
te toco en el hombro hago promesas y tú riés
mientras descubrimos en el silencio cómplice del vino
que los dedos se enredáran los unos en los otros y sobre la piel
tiembla una tela de luminosa sal donde cae la noche
sobreviviremos al desgaste del amor
bebemos más
para que haya sólo deseos y no amor entre nosotros y
el muchacho que acostumbra a clavar un cuchillo rubio
en el hombro del mar
La vie est une gare,je vais bientôt partir,
Je ne dirai pas oú.
me callé
sabiendo que me llevarías a casa por el camino de la playa
tambaleantes
y mientras yo no pueda abrir de nuevo los ojos
no has de partir estoy seguro
con tu jaula llena de lunas mansas
apaciguadas.


Al Berto

Trabalhos do olhar-IV

Depois do jantar
as mulheres falam muito
os homens estão quase sempre calados
atentos
perseguem-nas com olhares ternos
os dedos movendo-se hesitantes em redor dos copos

Elas falam sem cessar riem
perdem o fôlego comem bolos
voltam a rir cada vez mais forte
bebem anis sabendo que os homens as observam
silenciosos amam-nas furtivamente no escuro das casas
importando-se pouco que elas se embriaguem
devagar...

...as mulheres falam muito
têm o riso arguto nos lábios acesos pelo anis
sempre que os homens as desejam
noite adiante...calados.

Al Berto

Friday, February 15, 2008

Encantada

Na última sexta-feira de janeiro recente,depois de um dia de estudo tedioso e enfadonho...de direito das obrigações,fui sem contar, ouvir concertina pelas mãos mágicas de Artur Fernandes,elemento do grupo músical Danças ocultas e de outros não menos maravilhosos e sublimes projectos!!Estava por casa,nem contava sair...embora tivesse alguma vontade!
Mas para meu deleite,o telefona toca por volta das oito e meia,e o convite que sem saber ansiava...ganhou voz,afinal de contas aquela vontade de fuga nocturna que me tentava tinha uma razão de ser...era um chamamento,creio,estas coisas são bizarras mas magnificas!Não quero acreditar que fora coincidência...ora muito bem,estaria pronta ás nove!O que pretendia não era uma noite daquelas de ninguém,que embora deliciosas,se demoram e nos consomem,o que queria mesmo era estar relaxada,sem grandes preocupacões sociais,emocionais e outras e chegar a casa cedo!
Nove horas,ainda me demoro...estas coisas de blushs demoram o seu tempo.Respeitosamente,deixo quem me espera a esperar mesmo...mais alguns minutos que o previsto,toca o telefone,o baton cai,sujo o vestido com pasta de dentes que pela manhã egoísta e óciosamente deixei sujar a pia,seco o cabelo,beijinhos á mama e ao papa,meia-dúzia de palavras carinhosas ao Tobias e zarpo-me dali!!
Impacientes os meus acompanhantes,recebem-me com carinhos e sorrisos e partimos a caminho do lugar do acontecimento.
Estava cá o Artur Fernandes com um dos seus dois irmãos,aquele que ainda não conhecia,para um programinha sobre a música da concertina,a sua evolução,influências...um traço histórico-musical da concertina,tocou desde música dos Balcãs,a choradinhos cabo-verdianos a músiquinha brasileira...deliciosamente,como não poderia deixar de ser...e sempre com muito humor,o irmão para além de simpático e bom músico,tinha cá uma piada!A assistência,pouco numerosa e familiar,esbanjava gargalhadas timídas...eu não fui excepção.Não sei se pela graça do acompanhante apenas,penso que pelo bem-estar também,que se espera e poucas vezes se alcança numa sexta-feira á noite!
Depois de me ter maravilhado,tomo uma cevadinha e conscientemente venho para casa...porque queria,e porque a minha boleia também tinha que estudar para um exame que tinha no dia seguinte...tudo a correr como esperava,a minha estrelinha da sorte normalmente,não me deixa ficar mal.Ou desejo pouco,ou tenho mesmo sorte!Enfim...nos dias seguintes,estes,tenho secretamente e até agora sem ter partilhado,ouvido Danças ocultas mais frequentemente,e confesso é magia pura...cada música melhor que outra,mais saborosa,mais sublime,mais profunda,mais alegre,mais dançante!Quando tiver melhor de finanças,vou comprar um cd,estes feitos merecem...por tudo aquilo que nos proporcionam...mesmo.Estou encantada!

Monday, February 11, 2008

Estrela da tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes
que me acontecia
eu esperava por ti,tu não vinhas
tardavas e eu entardecia
Era tarde,tão tarde,que a boca,
tardando-lhe o beijo,mordia
quando á boca da noite surgiste
na tarde tal rosa tardia
quando nós nos olhamos tardamos no beijo
que a boca pedia
e na tarde ficámos unidos ardendo na luz
que morria
em nós dois nessa tarde em que tanto
tardaste o sol amanhecia
era tarde de mais para haver outra noite
para haver outro dia.

Meu amor,meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor,meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor,meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos nocturnos silêncios que á noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa
De fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que á noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem,vivendo morreram.

Eu não sei,meu amor,se o que digo
É ternura,se é riso,se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor,nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto.


Ary dos Santos
*Um dos poemas mais bonitos de todos os tempos,e maravilhosamente cantado pelo nosso Carlos do Carmo.Belo,muito belo!É um dos meus favoritos,e andava a negligenciar o meu carinho por ele,mas como nunca é tarde,aqui está.

Embriaga-te

Devemos andar sempre bêbados.
É a única solução.
Para não sentires o tremendo fardo do tempo que te pesa sobre os ombros e te verga ao encontro da terra,deves embriagar-te sem cessar.
Com vinho,com poesia,ou com virtude.
Escolhe tu,mas embriaga-te.
E se alguma vez,nos degraus de um palácio,sobre verdes ervas de uma vala,na solidão morna do teu quarto,tu acordares com a embriaguez atenuada,pergunta ao vento,á onda,á estrela,á ave,ao relógio,a tudo o que se passou,a tudo o que gira,a tudo o que canta,a tudo o que fala;pergunta-lhes que horas são:"São horas de te embriagares.Para não seres como os escravos martirizados do Tempo,embriaga-te,embriaga-te sem descanso.Com vinho,com Poesia,ou com Virtude."


Charles Baudelaire

Sunday, February 10, 2008

Visita-me enquanto eu não envelheço

Visita-me enquanto eu não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com o teu rosto de Modigliani suicidado

Tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

Ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo á boca sulforosa dos espelhos
vem

Antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando a tua ausência se prende ás veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

Com o teu sabor de açucar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-se.


Al Berto

Thursday, January 24, 2008

Avô








Mário Cesariny

É curioso

Cesariny,é um dos muitos poetas portugueses,de quem gosto muito.Não só pelo modo como escreve,com o qual muito me identifico - inquietante,critico,de uma delicadeza muitas vezes grosseira,livre de convencionalismos e outras coisas mais,como uma espécie de anarco-surrealista da escrita e das artes plásticas.O motivo que explica o meu fascínio excede e vai para lá dos meus meros gostos literários.
A verdade, é que Cesariny sempre,desde que o conheci(á sua literatura e figura)me fez lembrar o meu avô...não propriamente pela vertente literária,porque o meu avô era politica e esteticamente mais conservador,embora pessoal e socialmente nem por isso,mas pelas semelhanças físicas,a expressão,mais precisamente!
Ambos não tinham dentes e as bocas por isso eram quase inexistentes,tinham as unhas e dedos amarelados pelos longos anos de tabaco,muito tabaco,a ausência de cabelo,a mesma expressão...vaga,profunda,provocadora,taciturna,inteligente,observadora e débil,extremamente débil!
A primeira vez, que vi a figura de Cesariny foi ainda me recordo,num documentário biográfico que passou há uns anos na rtp2...e fiquei impressionada,com as semelhanças...deliciada também!
Provavelmente,quando eram jovens nada teriam de comum,mas agora nestes últimos anos de velhice,tinham...talvez pelo semelhante percurso existencial-sombrio,boémio,intelectual,solitário,belo,inconformado-não sei se bem assim,mas creio.
Resta-me,pelos motivos evidentes,recordá-los.Cesariny,pela sua obra e ao meu avô pelos muitos sorrisos,conselhos,cumplicidades e outras muitas coisas de um passado feliz que já não volta.Coisas da vida...

De profundis amamos

Ontem
ás onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso.

Mário Cesariny

Essa miúda

Essa miúda é uma fogueira
Que te acende as noites em qualquer lugar
E tu desejas arder com ela
Enquanto bebes o perfume
Que ela deita nos seus trapos de cor
Para te embriagar

Essa miúda é um exagero
Diz que sem ti não sabe voar
E tu adoras voar com ela
E enquanto inventas espaços novos
Ela vai arquitectando uma teia
Para te aconchegar

Essa miúda faz-te acreditar
Que o sol é um presente
Que a aurora traz
Principalmente para ti

Essa miúda é uma feiticeira
Prende-te a mente e põe-se a falar
E tu bem tentas compreende-la
Mas o que sai da sua boca
Não parece condizer com o que ela
Te diz com o olhar

Essa miúda faz-te acreditar
Que o sol é um presente
Que a aurora traz
Principalmente para ti.

Jorge Palma
*Não consegui resistir.Aqui fica mais esta,para meu e vosso deleite!

O sublime


Ontem,hoje e sempre.

Estrela do Mar

Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
e em que o sono parecia disposto a não vir
fui estender-me na praia sozinho ao relento
e ali longe do tempo acabei por dormir

Acordei com o toque suave de um beijo
e uma cara sardenta encheu-me o olhar
ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
ela riu-se e disse baixinho:estrela do mar

Sou a estrela do mar
só a ele obedeço,só ele me conhece
só ele sabe quem sou no principio no fim
só a ele sou fiel e é ele quem me protege
quando alguém quer á força
ser dono de mim

Não sei se era maior o desejo ou o espanto
mas sei que por instantes deixei de pensar
uma chama invisível incendiou-me o peito
qualquer coisa impossível fez-me acreditar

Em silencio trocámos segredos e abraços
inscrevemos no espaço um novo alfabeto
já passaram mil anos sobre o nosso encontro
mas mil anos são pouco ou nada para a estrela do mar.

Jorge Palma
*Magia,pura magia.

Monday, January 21, 2008

Fingimento

Á janela,ouve
os seus medos maiores,
a gritarem lá longe
no infinito!
Com o colo branco
debruçado ao parapeito
num silencio absorto mudo,
só há o eco dos seus gritos.
Fingida serenidade revela...
involuntário fingimento
dos seus traços.

Bárbara Bentes

Tuesday, January 15, 2008

Henry Lee

Get down,get down,little Henry Lee
And stay all night with me
You won´t find a girl in this damn world
That will compare with me
And the wind did howl and the wind did blow
A little bird lit down on Henry Lee

I can´t get down and I won´t get down
And stay all night with me
For the girl I have in that merry green land
I love far better than thee
And the wind did howl and the wind did blow
A little bird lit down on Henry Lee

She leaned herself against a fence
Just for kiss or two
And with a little pen-knife held in her hand
She plugged him through and through
And the wind did roar and the wind did moan
A little bird lit down on Henry Lee

Come take him by his lilly-white hands
Come take him by his feet
And throw him in this deep deep well
Which is more than one hundred feet
And the wind did howl and the wind did blow
A little bird lit down on Henry Lee

Lie there,lie there,little Henry Lee
Till the flesh drops from your bones
For the girl you have in that merry green land
Can wait forever for you to come home
And the wind did howl and the wind did moan
A little bird lit down on Henry Lee.

Nick Cave and The Bad Seeds
*Uma das minhas favoritas,creio que foi a primeira de Nick Cave que me deram a conhecer...adoro!

Wednesday, January 9, 2008

Caminha pela sombra
dolorosa e fria!
Está surdo,não ouve ninguém...
e não quer.
Tem frio,
sente-se só,
procura uma fogueira!
Vai,por ruelas e calçadas
e recantos
já esquecidos e
abandonados...
condenado á sua solidão.
Já não tem esperança,
crença...só sente frio.
E eis que ela passa,
e com um
raio de sol
que traz ao peito,
ilumina-o!

Bárbara Bentes

Saturday, January 5, 2008

Tobias

Hoje não me posso demorar aqui...o Tobias está á minha espera!!Já não vou a casa faz três dias,e temos que fazer as pazes!É verdade,estamos zangados...A última discussão foi feia,muito feia.
Quatro da manhã,já consegui aquecer o meu leito...estou mesmo a sucumbir!Gosto de estar acordada,mas o corpo pede,e a minha mente consente depois de alguma resistência...ouço a porta do quarto a abrir devagar,já ouvia os seus passos pelo corredor de mansinho há algum tempo...vem,aproxima-se e começa a acarinhar-me com o queixo,a roçar assim nos meus cabelos...quer que lhe de o sinal de aceitação...sim,podes dormir comigo!!Não,hoje não estou para aí virada,falta-me predisposição.Quer enfiar-se debaixo dos lençóis,e eu em jeito de benevolência levanto levemente só o edredão...Queres dormir aqui?Dormes então assim em cima dos lençóis!!Não quer...salta da cama,enraivecido e nervoso pela sua derrota e anda ás voltas pelo quarto a remexer-me em tudo para chamar a minha atenção...bem,não tenho paciência para dramas e birras...levanto-me já incomodada com os seus zumbidos e tento lançá-lo para fora do quarto,e depois de alguma luta...decide sair,já lhe bastava o suficiente a humilhação!!
Deito-me de novo,e ouço-o a falar sozinho em miares roufenhos pela casa fora...passa-lhe,pensei!
De manhã,acordo já pronta para o pequeno-almoço já tardio...e encontro-o na cozinha.Sabia,era inevitável,vivemos na mesma casa.Chamo-o.Tobias vem aqui,anda cá.Faz de conta...está chateado comigo,tudo bem!!Mas insisto,vem aqui...e ele vem,encosto a minha cara junto á dele para lhe dar o beijo matinal(já esquecida da noite anterior)e ele morde-me o pescoço...em jeito de vingança...mas que subtileza!Até podia pensar que queria fazer as pazes...não,não era!Estava a magoar-me.Agora já zangada,atiro-o para o chão...e vai,sem querer resolver o assunto.
Ainda lhe disse,cheiras a tangerina!!Não olha para mim...faz de conta que não existo.E ali fico sozinha...salta pela janela da cozinha para o seu passeio!Vai encontrar-se com outra gata qualquer...

Thursday, January 3, 2008

O Beijo

Quando as nossas bocas
se uniram,
o meu corpo
parou!
Senti tudo em mim
renascer,
querer viver de novo,
o teu abraço prometido!
Há tanto que ansiava esse calor
dos teus lábios nos meus...
(só aquele leve tocar,
da alma toda a latejar...)
Ah,e a tua mão a medo
mas com vigor
a levar-me
o casaco vestido,ombros
abaixo,agora já então
despido.
Entre beijos e carícias e recordações
ficamos a nu,e aí
nesse momento
voltamos a ser um,
o mesmo
de outrora!
Foi um instante eterno,esse...
e mesmo agora
aqui deitada,num leito
sem ti
sinto,do mesmo sentir
o peso do teu corpo
sobre o meu,a tua boca na minha boca
e a tua mão
grande e ágil
de homem bem posto
a agarrar a minha
com força
ternura
e sobretudo
saudade.


Bárbara Bentes